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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

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Felicidade, romance de João Tordo, editado por Companhia das Letras, 1.ª edição: Outubro de 2020.

O título remete-nos para um conceito completamente oposto ao ambiente que a narrativa nos apresenta: Felicidade como nome próprio de uma das personagens, mas também aquele estado de alma e de vivência que todo o ser humano procura. E, numa trilogia de nomes falantes que compõem esta complexa trama, felicidade é a primeira a morrer para todos, restando até ao fim a esperança, "a última a morrer" também.

Marcado pelo destino, o narrador personagem é uma daquelas figuras de tragédia grega, um descendente da família dos Atridas, uma família maldita que os deuses perseguem sem descanso. Qual Orestes perseguido pelas Erínias, as divindades da vingança e do ódio, ele carrega em si, desde a sua adolescência,  um episódio que o marcará para sempre e atormentará os seus dias.

Romance com todas as características de tragédia grega, não faltando mesmo o adivinho cego que, qual coro, profetiza e aconselha.

Uma obra que nos prende desde a primeira página e nos surpreende sempre, com novas peripécias até ao desenlace.

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João Tordo, O Ano Sabático, D.Quixote, Janeiro de 2013, 205 páginas.

 

" Uma vez, num dia especialmente difícil, Hugo foi procurar a um dicionário a definição de fracasso. Leu palavras que nunca usava: malogro; ruína; estrépito. Nessa tarde, deitado na cama do apartamento de Saint-Henri, deu-se conta de que não conseguiria tocar nessa noite."

 

Hugo é um músico, toca contrabaixo, que despertou já tarde para essa vocação. Vive no Canadá há uns anos, onde se entrega a excessos, na busca de um sentido para a sua vida, sentido que não encontra. Decide então regressar a Lisboa, vai para casa da irmã gémea, para, segundo ele, tirar um "ano sabático", um ano em que não toca, nada faz, em que espera encontrar a paz desejada e as respostas para as suas interrogações.

Mas este regresso a casa vai transformar-se num tormento ainda maior, a partir da noite em que assiste a um concerto de um pianista, que ele não conhecia, mas que estava com grande sucesso. É que, no meio das composições dessa noite, o pianista toca uma música que Hugo andava há muito a compor e ainda não tinha conseguido terminar. Como podia aquele desconhecido conhecer a música que apenas existia no seu pensamento?

Hugo entra, então, numa busca desesperada, procura o pianista, procura uma resposta. Será ele o seu irmão gémeo que morreu apenas com algumas horas de vida?

Esta é a narrativa de um homem em busca do seu EU, um eu incompleto e que nunca chega a alcançar a plenitude, um eu em busca da sua outra metade. Esta angústia leva Hugo à loucura e ao suicídio, depois de, no seu íntimo, ter matado o outro, o pianista Stockman.

 

O livro é dividido em duas partes.

Na segunda parte é o narrador/autor que nos fala do seu amigo, o pianista Luís Stockman, e da forma como ele, depois de ter lido uma carta que Hugo escreveu antes de se suicidar, viaja para o Canadá, em busca de uma resposta para tudo o que se passou.

Nesta segunda parte o narrador/autor, constrói connosco a sua narrativa, apresenta-a como real, tendo mudado apenas os nomes das personagens, e, através das cartas e telefonemas do seu amigo, vai contando uma outra história que encaixa na primeira e parece completá-la.

 

Um romance fora do comum, uma narrativa que nos intriga a princípio, mas que nos toca profundamente e nos faz ler até ao fim; a narrativa de um homem e do seu duplo, o ser incompleto que procura o seu eu mais profundo.