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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

No Dia Mundial da Poesia, um poema sobre a Europa:

 

Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o

nas feridas do ocidente para que sequem mais

depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,

que eu acalmo com a água de um ócio de

culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,

e obriga a empurrá-la para deixar passar

os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se

às esquinas, como se não fizesse nada,

e confundem-na com a puta da noite, como

se ela estivesse à venda; mas o que ela faz

é oferecer o corpo a quem quiser. De outras

vezes, a Europa é a virgem que não quer

descer do altar, como se alguém a adorasse,

ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção

de milénios. "Tirem-me a Europa

da frente", dizem os que querem chegar

mais depressa aos lugares que a Europa

já descobriu, e perdeu, há muito. "Quero ser

como a Europa", dizem outros — os que

andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe

o passo, e caíram no primeiro obstáculo,

vendo acumularem-se por cima de si os corpos

de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu,

e pede que a fechem para que ninguém mais

acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio

da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta

a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro

a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando

alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar

por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é

de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,

deito-a fora e troco de isqueiro.

 

Nuno Júdice, A matéria do poema, Dom Quixote, 2008.

 

"A Europa está no fim porque esgotou o seu reservatório de mitos. A América sobrepõe-se-lhe porque nunca os teve — ou teve apenas o mito de si própria, identificado com a eficácia pragmática. O que nos dá assim a consumir é pura exterioridade e imediatismo. Assim dançamos o rock sobre a nossa sepultura. A arte europeia desde há um século realizou-se na progressiva negação — até a negação de si mesma. A América conheceu-a e adoptou-a na pintura de um Pollock ou Tobey. Mas a essa mesma pô-la de parte para dar lugar a um Warhol, Jasper Jonhs, Rauschenberg e a outros que pela sua arte nos disseram por fim que a arte não existia. A Meca da cultura não é mais Paris ou Berlim, mas Nova Iorque. Simplesmente o ponto de partida não estava lá porque foi daqui. A América não deixou de ser o que era e a filosofia pragmática hoje vigente, nasceu lá há um século. A América é o que foi sempre, nós é que mudámos no nosso esgotamento. E é com a noite europeia que é visível o fósforo americano. Sempre a exterioridade na Europa foi uma sedução. Mas ela era o lado morno ou irresponsável, sendo a interioridade o lado responsável e respeitável. Mas quando este emudeceu teve o outro a sua oportunidade. E foi então que a América foi uma fiança visível. Nós assinalamos o espaço entre as duas guerras como o final do esgotamento. Mas isso é sobretudo assinalar com marcos de ferro uma desertificação que vinha de longe."

 

Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, 2001 (já depois da morte do autor).

 

Muito se tem citado o nosso grande Eça, mostrando a actualidade dos seus textos.

Aqui fica mais um. Falando sobre a Europa, escrevia:

 

"De sorte que, olhando em resumo para o norte e para o sul, bem podem aqueles que se distinguem por conhecer as coisas das nações sombriamente afirmar que a máquina se desconjunta, e que a situação da Europa é medonha!

E todavia, no fundo, a situação é simplesmente normal. [...]

A situação da Europa, na realidade, nunca deixou de ser medonha. Tem-no sido melancolicamente e apaixonadamente todo este século. Foi-o durante todo o século XVIII, através de mais indiferença e de uma maior doçura de vida. Tem-no sido em todos os séculos, desde que os Árias aqui chegaram, cantando os Vedas e empurrando os seus rebanhos para oeste. A "crise" é a condição quase regular da Europa. E raro se tem apresentado o momento em que um homem, derramando os olhos em redor, não julgue ver a máquina a desconjuntar-se, e tudo perecendo, mesmo o que é imperecível — a virtude e o espírito. Já o velho cronista medieval murmurava com infinita desconsolação: — "Tudo se desconjunta, e mesmo entre os homens se vai embotando a ponta da sagacidade." Já o mais velho poeta clássico, o comedido e satisfeito Horácio, cantara tristemente, quando sobre o Mundo começava a espalhar-se a imensa majestade da paz romana: — "Tudo se afunda, e, mais que nenhum outro, este tempo é fecundo em misérias."

Naturalmente não se queixavam de deficits ou de crises industriais, mas daquilo que então mais preocupava os homens cultos — o enfraquecimento da virtude, da moral, da religião, do patriotismo, da segurança pública.   [...]

Mas o que são no fundo estes lamentos? São apenas, num tom mais solene e amplo, aquele queixume familiar que cada ano redizemos, quando as folhas caem e os céus se recobrem de névoas: — "Aí vem o Inverno e a noite!"

É que a sociedade assemelha-se à Natureza. E na Europa, como em qualquer espesso bosque, num fundo de vale, um momento vem em que tudo decai e fenece: — os ramos secam e racham, os mais altos carvalhos tombam de velhice, mil podridões fermentam, o solo desaparece sob os destroços, a obscuridade aterra, um longo soluço passa no vento. E, a quem então o atravesse, o bosque afigura-se na verdade coisa confusa, arruinada e medonha. E todavia, tudo isso — é simplesmente Dezembro. É a vida; é a ordem. Das ramagens apodrecidas já se estão nutrindo as sementes que hão-de ser árvores: e através das decomposições conserva-se a seiva, que tudo fará reflorir e reverdecer, quando Março chegar. Ora estes tempos que vamos atravessando são o Outubro fusco que anuncia um dos grandes Dezembros do mundo. Temos já misérias, crises, dissoluções, velhas raízes que se despegam, prantos no vento; pior nos irá quando Dezembro vier: mas através de todas as vicissitudes sempre se conservará, como na Natureza, a eterna seiva, que é a aterna força. "  

Eça de Queirós, na Gazeta de Notícias em 2 de Abril de 1888.  in Notas Contemporâneas