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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Pela importante síntese que apresenta da obra camoniana, especialmente da epopeia, transcrevo o artigo de Vasco Graça Moura, no DN de hoje, 6 de Junho:

 

Nota para o dia de Camões

por VASCO GRAÇA MOURA

 

Fala-se no dia de Camões, mas nessa data ninguém costuma preocupar-se excessivamente com a importância e o sentido, quer da lírica, quer da épica camoniana. Mesmo sem uma retórica exacerbada e patriotinheira, à moda do triunfalismo de antigamente, só lucraríamos com o humilde reconhecimento de que as dimensões identitárias e culturais de uma figura e de uma obra como a dele mereciam celebração mais adequada e iniciativas que propusessem um trato mais continuado e mais esclarecido com ele e com os seus contemporâneos. Isto nos levaria logo aos programas escolares e às questões do ensino da literatura e da história na escola, com todo o cortejo de considerações que se justificam. E levar-nos-ia também a questões existenciais mais profundas, tocando um sentido da cidadania mais substantivo e mais preocupado em lermos Camões também à luz do que hoje somos, e em sermos "lidos por ele" na mesmíssima medida.

É claro que o contacto com a obra do épico, hoje, não vai sem dificuldades, para além das que respeitam à complexidade do texto, à sua interpretação, à sua sintaxe, ao seu léxico, à sua inserção no quadro da mentalidade nacional e no próprio tecido cultural europeu, quer na diacronia, quer na sincronia. Camões entretanto deixou de ser lido a sério, funcionando cada vez mais como repositório de citações para sossego de umas quantas almas. Mas há aspectos que, ainda agora, poderiam ser vistos e compreendidos mais ou menos por toda a gente e que são pelo menos tão importantes quanto a exaltação das façanhas guerreiras e dos aspectos heróicos da expansão.

Um desses aspectos prende-se com a crítica dos excessos, desvios, abusos, corrupções e desmandos da sociedade do seu tempo. Outro, respeita à introdução de uma noção de trocas comerciais no texto do poema, para a qual Magalhães Godinho de há muito chamou a atenção. Outro ainda, acentua a importância do Amor, quer como manifestação espiritual e emocional da vida humana, que pode condicionar não apenas o destino individual, mas também o próprio curso da História, quer enquanto dimensão metafísica que dá acesso ao conhecimento cósmico, como já em Dante acontecia.

Sendo um repositório de tipo enciclopédico em que se compendiam múltiplos conhecimentos da sua época (históricos, geográficos, antropológicos...), a obra de Camões, no plano da cultura literária, é uma verdadeira suma intertextual da presença dos grandes clássicos. Desde logo, são de registar a destreza, a densidade e a qualidade literária com que é acolhida e tratada, numa perspectiva renascentista, quando não maneirista, mas sempre vivida, essa herança da Antiguidade. Depois, porque tais elementos envolvem uma compreensão e uma encenação do mundo a partir dos ensinamentos, mitos e figuras assim recebidos, mas questionam radicalmente tal herança do mesmo passo que a reelaboram. Os Lusíadas são um momento crucial do próprio processo de interrogação da Europa sobre si mesma. E também por isso são um monumento incomparável da cultura europeia.

O poema camoniano configura uma elaborada epopeia do desvendamento do mundo e da aventura do conhecimento humano: ao contrapor à fábula e ao mito critérios novos de verdade e de experiência; ao contrapor os testemunhos vividos de fenómenos naturais e as referências a tecnologias inovadoras ao saber meramente livresco dos Antigos; ao manifestar a plena consciência de estarem a ser ultrapassados os "vedados términos" do mundo até então conhecido; finalmente ao propor uma visão, conquanto ainda geocêntrica, da estrutura e funcionamento do Cosmos.

Numa geometria cujo paralelismo só pode ser intencional, os cantos V e X de Os Lusíadas, a rematar, respectivamente, a primeira e a segunda metades do poema, articulam os dois tempos fundamentais desse conhecimento, o que vem do domínio da Natureza e das suas forças e o que desenha uma arquitectura do Universo cujo modelo em "trasunto reduzido" é apresentado no "globo transparente". Assim a História se fez conexa com a experiência humana e a aventura da viagem torna-se iniciática e abre para uma contemplação da transcendência.

Camões foi capaz de pegar nestas coisas e de as tornar elementos essenciais da magnificência do seu poema. Não perdemos nada em recordá-las de vez em quando. Porque não começar já hoje?

 

 

 

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho, 2010, 456 páginas.

 

Depois da viagem de Vasco da Gama, narrada na epopeia de Camões, Gonçalo M.Tavares propõe-nos, no século XXI, a viagem de Bloom, não por mar, mas pelo ar. 

Com uma estrutura equivalente à d' Os Lusíadas (10 cantos, cada um deles com o mesmo número de estrofes do canto equivalente na epopeia camoniana), esta viagem do século XXI é, também, recheada de peripécias, de personagens que tentam impedir Bloom de alcançar o seu objectivo, de traições e ciladas, a que o herói consegue escapar, nem sempre pelos meios mais honrosos.

Mas Bloom não vai em busca de terras, não procura os bens materiais. Trata-se de uma viagem espiritual, em busca de si mesmo e em busca do conhecimento.

O Oriente é, para Bloom, a pátria da espiritualidade, é esse enriquecimento que ele procura. E as trocas que se efectuam são puramente culturais. Na mala de Bloom vão dois livros que representam a cultura ocidental: a filosofia, nas Cartas a Lucílio, de Séneca, a tragédia, no teatro de Sófocles. Roma e Grécia, as duas culturas que formaram a Europa; em Séneca, a sabedoria do filósofo, o retrato do seu tempo, a serenidade dos conselhos, o gosto pela vida calma em contacto com a natureza; no teatro de Sófocles, a tragédia humana, as leis divinas, a regra do "nada em excesso", pois a ambição humana pode causar a ira dos deuses, o mito, com todo o seu simbolismo. São estes livros, em edição raríssima, que são cobiçados por Shankra, o sábio indiano com quem Bloom se encontra. Por sua vez, Bloom deseja também uma edição antiga de uma obra representativa da sabedoria oriental, Mahabarata.

Nesta viagem vemos, não um herói perfeito, mas um homem com todos os seus defeitos e qualidades, a angústia e a procura, a insatisfação, o cansaço e o desespero, a desistência, por fim.

No meio de todas as peripécias, mantém-se a ligação ao passado, aos afectos, à família. Mais do que tudo guarda-se algo que não tem valor material, um rádio que não funciona, mas que representa mais que tudo o resto.

Bloom procura, chega à Índia, mas anseia pelo regresso a Lisboa, mesmo sabendo que ao chegar "Nenhum ódio o recebe e nenhum amor"(Canto X, 145).

"As cidades//perderam a capacidade para admirar as grandes viagens. // Bloom olha de longe para a casa onde foi feliz; e nada sente." (X,148).

Uma obra extraordinária, recheada de referências culturais e de influências de muitas outras obras (das epopeias de Homero ao Ulisses de James Joyce, cuja personagem, Bloom, aqui se repete).

As reflexões do narrador incidem sobre os mais variados temas: a ambição e a cobiça, a traição e o poder do dinheiro, a complexidade do ser humano, feito de corpo e espírito, homem que procura o céu e a santidade, mas que não se livra de cair nas piores tentações. Reflexões sobre a amizade, o amor e a solidão, sobre o mundo e o progresso da humanidade, sobre os benefícios e os malefícios da ciência e da tecnologia.

 

Bloom procurou // longe de Lisboa a sabedoria bastante para chegar // calmo ao país da calma: a Índia. // No meio do ruído dos animais contemporâneos // há que procurar algo mais: as bestas, por exemplo, // trazem outra forma de existir, um outro // estilo.  (V,73)

 

Mas a Índia tem homens e tem mulheres — disse Anish.

O ouro foi todo levado, mas por vezes parece que ainda

o querem levar de novo. As cidades

começaram a ser construídas como poemas,

mas rapidamente foram concluídas com tijolos baratos

e o sofrimento dos que trabalharam longamente

e ganharam pouco.  (VII, 30)