Sexta-feira, 7 de Julho de 2017

O vendedor de passados

José Eduardo Agualusa, O vendedor de passados, Quetzal, 2017, 145 páginas

 

Em mais uma sátira à sociedade angolana da actualidade, Agualusa apresenta-nos aqui uma personagem que, com os seus conhecimentos históricos, com os livros que herdou do pai, um português, se dedica a construir passados para aqueles que, tendo dinheiro, não têm uma história. Nesses falsos passados, que ele constrói, os homens poderosos do seu tempo, de militares a políticos, enfim, os ricos, a burguesia angolana ganha mais confiança em si, ao ponto de se convencer que aquele passado é mesmo verdadeiro.

Assim se vai construindo uma memória feita de equívocos, de construções fantasiosas, de sonhos que, por vezes, se transformam em pesadelos.

O narrador, também ele uma fantasia, um humano que se viu reduzido, metamorfoseado num minúsculo animal, vai observando o que se passa na casa deste construtor de passados, numa visão privilegiado que lhe permite assistir ao desenrolar dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, ir contando os sonhos do seu passado humano. Para credibilizar a sua existência entra em diálogo com as personagens. Em sonho? Na mente de cada um?

Uma narrativa cheia de imaginação onde sonho e realidade se misturam, levando as personagens a viver na fantasia para esquecer os seus problemas, as suas frustrações.

 

publicado por isa às 10:37
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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

BARROCO TROPICAL

José Eduardo AGUALUSA, Barroco Tropical (romance), Dom Quixote, 2009, 342 páginas.

 

Uma narrativa cativante pela forma como vai variando a perspectiva e o tipo de narrador, bem como pela inserção de narrativas intercaladas, diários ou cartas.

Tudo se passa em Luanda, num futuro muito próximo, numa cidade onde a corrupção campeia. Tece-se, através das personagens, uma crítica feroz a uma governação autocrática, que gera o medo e o terror entre camadas da população. Há pequenos grupos que dominam de forma cruel, persecutória e assassina. Não há liberdade de expressão e os que ousam mover-se por conta própria, denunciando o que se passa, são perseguidos e ameaçados.

Sob a capa de manter tradições do povo nativo, fugindo às regras que os colonialistas deixaram, cometem-se atrocidades. Os que contestam são apelidados de traidores, acusados de estarem ainda imbuídos do espírito colonial, até mesmo por defenderem a língua oficial, o português, que os outros querem substituir pelas línguas tradicionais, que já poucos falam ou entendem.

É retratada uma cidade de contrastes, na pobreza e degradação das habitações, grandes arranha-céus abandonados, mas grandiosas casas, carros e vida de luxo para alguns, os que dominam.

Percorrendo toda a narrativa o recurso ao fantástico, a crença no sobrenatural, mesinhas e bruxarias, numa afirmação de tradições ancestrais. Curandeiros, artistas, traficantes de droga povoam este universo crespuscular, numa cidade em convulsão, no ano 2020.

Tudo começa com uma tempestade e uma mulher que caiu do céu.

Não faltam as relações com Portugal e os portugueses, os amores infelizes, a música tradicional, a literatura, o jornalismo.

“ Os jornais angolanos trazem com frequência notícias de pessoas assassinadas sob a acusação de feitiçaria.”

“Triste figura a minha. Arrastado por uma trela, como um animal, rosto desfigurado, camisa manchada de sangue, calças rasgadas.”

“Escrevo para iluminar os corredores da minha alma.”

“A caveira falante — um conto africano”

Cap. 19 “ O vendedor de espelhos, seguido de um debate sobre línguas e identidades destinado a confundir os meus detractores neonativistas”

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publicado por isa às 10:59
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