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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Lídia Jorge, O Vento Assobiando nas Gruas, Dom Quixote, 2002, 538 páginas

 

“Naquela tarde de Agosto, o longo corpo da Fábrica Velha ainda lá estava estendido ao sol. Não propriamente intacto, pois nessa altura já o telhado verdoengo abaulava como se a ondulação do mar se prolongasse na cobertura do edifício. Também os parapeitos das janelas ostentavam ramalhetes de ervas finas dispostas em forma de cabeleira, puxando-os para terra.” — assim começa o romance.

 

Um retrato de duas épocas e, no essencial, duas famílias. Uma sociedade em mudança, um passado que deixa raízes num presente que quer transformar-se. Mas, no fundo, o essencial permanece. São os laços familiares, carregados de problemas próprios de famílias numerosas, são os caminhos que cada uma segue, mesmo não sendo sempre os mais correctos.

 

“Como muitas vezes lhe sucedia, possuía todos os elementos encadeados dentro da sua ideia, e no entanto, verdadeiramente, não dispunha de nada para dizer. A esse propósito, o primo João Paulo sempre fora de opinião de que, se acontecesse uma pessoa não dispor das suas próprias palavras para expor um assunto, deveria socorrer-se das palavras dos outros.”

 

É uma sociedade em mudança, onde a família acaba sempre por ser posta em primeiro lugar. Mas vemos também as tricas políticas, a especulação financeira, os interesses económicos que se sobrepõem à razão e à justiça, o compadrio e a corrupção que passam por cima da defesa do património e do meio ambiente e, sempre, o parecer a sobrepor-se ao SER. Aqui se apresentam personagens complexas nas suas vidas nem sempre fáceis, num mundo em transformação nem sempre para melhor.

Ligando tudo, desde o início, Milene, a jovem inocente e pura, a adulta menina que apenas procura um apoio, a compreensão da família, uma vida simples e feliz.  É através de Milene que tudo se desenrola e é também ela que, sem se aperceber, provoca as mudanças.

 

Uma narrativa empolgante que nos conduz nos meandros desse enigma que é a vida, nos envolve em histórias e costumes, do passado e do presente, sem esquecer a poética que sempre subjaz na natureza humana.

 

“Tinham sido dias de grande inquietação. Agora, porém, já não havia armadilha nenhuma. Deus unia todos sob a mesma abóbada. Quanto mais alto e distante, mais unia. Ali estávamos todos.”