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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

 

Não falam com a natureza, os homens falam sozinhos,

sempre falaram. E há no entanto, ainda, entre dois analfabetos

de dois países longínquos,

uma estranheza que não existe em mais nenhuma espécie animal.

Foi o homem que inventou a linguagem

e foi também ele que inventou a falta de linguagem,

e a angústia que isso provoca.

 

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto V, est. 24.

 

Não se aprende por fora

nada que seja sensato e fique. Perceber

com olhos e mãos é perceber incompleto.

Ninguém recita sabedoria, ninguém memoriza

actos sensatos, a calma é tão profunda

e abstracta que a sua fórmula não vem nos livros

e não há movimentos que a desenhem.

O importante não tem tamanho para caber

na televisão.

 

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Caminho, 2010, Canto V, est. 74.

 

Extraído do blog De rerum natura, a quem peço desculpa pelo atrevimento, cito algumas passagens de um livro que poderá ser a minha próxima leitura.


Trata-se da obra de A. Compagnon, Para que serve a literatura?,Porto, Deriva Editores, 2010:

 

“Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem" (página 24).

 

"Com a literatura (…) o exemplo substitui a experiência, para inspirar máximas gerais ou, pelo menos, uma conduta em conformidade com tais máximas” (página 31).

 

“A literatura, enquanto instrumento de justiça e de tolerância, e a leitura, enquanto experiência de autonomia, contribuem para a liberdade e para a responsabilidade do individuo, valores esses, das Luzes, que presidiram à fundação da escola republicana” (página 31). 

 

a literatura é um exercício de pensamento; a leitura, uma experiência dos possíveis” (…) ela resiste à estupidez não com a violência, mas antes de forma subtil e obstinada" (página 49 e 48).

 

 

Mário de Carvalho, Quando o Diabo Reza, Tinta-da-China, Outubro de 2011, 164 páginas.


O livro apresenta um subtítulo "vadiário breve". É, realmente, da vida de vadios que, essencialmente, nos fala esta obra.

 

Duas realidades, dois grupos sociais, um retrato do nosso tempo. 

Aborda-se o problema dos idosos, da forma como são tratados, expostos à ganância familiar, que sonha com a herança, e à cobiça dos que fazem da burla e do aproveitamento dos mais frágeis o seu modo de vida. 

O narrador explora a vida dos grupos organizados, de pessoas que vivem de "esquemas" para sacar algum aos indefesos, da forma como engendram um plano quase perfeito para um golpe em grande, com todos os pormenores, mas que nem sempre dá certo e acaba por não obter o resultado pretendido.

O idoso, vítima em casa e na rua, é o mais prejudicado, quando, finalmente, se apercebe de quanto eram falsas as simpatias e os tratamentos de amizade que, de repente, dois estranhos lhe dedicam.

À família aplica-se o velho ditado "quem espera por sapatos de defunto toda a vida anda descalço". Os sonhos de cada um ficam por cumprir, sobra a falta de carinho filial, o abandono daquele que toda a vida trabalhou e lutou pela família e os atrasos da justiça que, quando é preciso, nada resolve.

Uma ironia amarga perpassa toda a obra que relata uma realidade, infelizmente bastante presente.

A linguagem usada pretende transmitir, nos diálogos, o calão próprio de grupos sociais marginais e sem cultura.

 

Giorgio Bassani, Os Óculos de Ouro, Quetzal, 2011, 126 páginas.

 

Uma imagem da sociedade de Ferrara, Itália, nos anos 30 do século XX, uma sociedade burguesa, onde o fascismo dominava.

A apresentação dessa sociedade é feita pelo narrador, um jovem universitário que, juntamente com outros colegas, vive experiências de viagens entre a sua terra e a universidade de Bolonha onde estudam. A personagem central será o homem dos óculos de aro dourado, o médico Fadigati, otorrinolaringologista, um ser pouco sociável, de quem pouco se sabe na cidade, mas do qual muito se murmura e de quem o narrador se torna amigo.

Aqui se relatam os preconceitos de uma sociedade fechada, que não aceitava a diferença, indiferente aos afectos e ao respeito pelo outro.

 

“ Não há nada como a honesta pretensão de manter distinto na sua vida o que é público do que é privado, para excitar o interesse indiscreto das pequenas sociedades honradas. “

 

Um romance sobre afectos, sobre a solidão dos incompreendidos, sobre interesses políticos, sobre a hipocrisia social.

 

Giorgio Bassani (1916-2000) foi um poeta e romancista italiano que soube, nas sua obras, fazer uma análise lírica mas ao mesmo tempo amarga da burguesia judaica italiana. 

Esta obra, Os Óculos de Ouro, foi publicada em Milão em 1970.

 

 

 

 

 

 

Gonçalo Cadilhe, Encontros Marcados, Clube do Autor, julho de 2011, 153 páginas.

 

O último livro do ano. Comprado no dia 31 de Dezembro de 2011, lido no dia 1 de janeiro de 2012.

 

Neste livro, Gonçalo Cadilhe reúne um conjunto de textos que foi publicando em revistas.

Fala-nos das suas viagens, de encontros marcantes, de momentos que só mais tarde percebeu como foram importantes na sua vida: pessoas, locais, canções, filmes, realização de sonhos...

Fala-nos de África, da América Latina, da distante Austrália, da América dos estados unidos, da Europa, da sua terra natal, a Figueira da Foz.

“Acredito no destino, mas só depois de ele ter acontecido. Não sou fatalista, sou integrista: tento integrar cada um desses encontros dentro de um significado mais amplo e fecundo.”

Um livro que nos transporta para longínquos locais, que  nos faz esquecer as agruras do quotidiano, que nos leva a sonhar.

 

 

Fernando Campos, A Rocha Branca, Alfaguara, Outubro de 2011, 246 páginas.

 

É o regresso de Fernando Campos às origens da sua formação académica — o mundo da antiguidade clássica, a língua e a cultura.

 

Desta vez é a poetisa Safo que inspira o autor. Num discurso cheio de poesia, com um apuro, uma delicadeza e uma riqueza de linguagem de que só este mestre é capaz, acompanhamos a poetisa Safo falando da sua vida, da sua poesia, dos seus amores.

Aliando o conhecimento histórico com a ficção, Fernando Campos descreve-nos os costumes da Grécia antiga, apresenta-nos personagens reais, mitológicas e fictícias, dá-nos a conhecer alguns poemas da poetisa de Lesbos e introduz canções da sua própria autoria. A língua grega aparece nos poemas acompanhada de tradução, dando-nos, desse modo, uma maior riqueza histórica e cultural.

Os locais são descritos em pormenor, sentimo-nos lá, presentes.

E Safo, o amor, a paixão percorrem este romance, cheio de mistérios, de crenças no sobrenatural, de poesia.

Uma leitura que encanta, que nos mostra como se pode usar a língua e a sua riqueza lexical com todo o rigor e propriedade.

 

O Natal no sentir de alguns dos nossos poetas:

 

Natal ... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

 

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Stou só e sonho saudade.

 

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

 

Fernando  Pessoa, Cancioneiro (1933)

 

PRESÉPIO

 

Nuzinho sobre as palhas,

nuzinho — e em Dezembro! —

Que pintores tão cruéis,

Menino, te pintaram!

 

O calor do seu corpo,

pra que o quer a Mãe?

Tão cruéis os pintores!

(Tão injustos contigo,

Senhora!)

 

Só a vaca e a mula

Com o seu bafo te aqueem.

 

—  Quem as pôs na pintura?

 

Sebastião da Gama

 

NATAL


Menino Jesus feliz

Que não cresceste

Nestes oitenta anos!

Que não tiveste

Os desenganos

Que eu tive

De ser homem,

E continuas criança

Nos meus versos

De saudade

Do presépio

Em que também nasci,

E onde me vejo sempre igual a ti.


Miguel Torga (1988)

 

O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro — aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas, ou italianas, ou russas, ou o que quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.

 

Fernando Pessoa, Páginas de Doutrina Estética.

 

Luís Sepúlveda, A sombra do que fomos, Porto Editora, 2009, 160 páginas.

 

Mais uma vez Sepúlveda recorda os tempos conturbados da sua pátria, o Chile, as lutas pela liberdade e a ditadura de Pinochet. 

Quatro amigos, velhos revolucionários, militantes de esquerda, recordam os tempos de clandestinidade, os tempos de exílio, os amigos desaparecidos e a derrota dos seus ideais. 

Reencontram-se passados anos, lembram a breve glória de Allende e a vitória de Pinochet com todas as suas consequências para os antigos revolucionários. E é num país agora adormecido que eles procuram reactivar a sua actividade passada, embora já nada seja igual.

Pelo meio há uma história algo rocambolesca, uma morte, uma desavença conjugal e uma investigação policial.

Um exemplo de amizade, de fidelidade aos ideais, de como sobreviver no meio da adversidade.