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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Patrick Modiano, O Horizonte, Porto Editora, 2011, 112 páginas.

Patrick Modiano — Nobel da Literatura de 2014.

 

Paris, anos 60 do século XX: tempos de irreverência juvenil, de certezas e de esperanças, mas também de desânimos, de fugas, de vazios; tempos em que a literatura e as discussões mais ou menos filosóficas são a marca de uma juventude, de uma sociedade em mudança.

As personagens passeiam pelas ruas de Paris, pelos cafés e outros locais de tertúlias, deambulam em busca de algo.

Sem que haja uma revelação directa, vemos no narrador-personagem central um homem marcado por uma infância de abandono, alguém que se sente perseguido, mais tarde, pela sombra da mãe que o abandonou, um homem solitário, que procura um rumo para a vida. Encontra uma jovem, enigmática, misteriosa, também ela fugindo de uma sombra, procurando esconder-se nas ruelas mais recônditas da cidade.

Assim se encontram e se compreendem duas almas muito semelhantes, até que um dia a vida as separa...

É Bosmans, o narrador, que, muitos anos mais tarde recorda esses tempos vividos e, regressando aos mesmos locais procura essa misteriosa mulher que em tempos amou. A memória desses tempos leva-o à procura...

" Margaret talvez não o reconhecesse. Ou talvez o tivesse esquecido. No fundo os seus caminhos tinham-se cruzado num lapso de tempo muito curto."

Maria Vitalina Leal de Matos, Prosas Desfocadas, 4Águas editora (POPSul), 2013, 103 páginas.

 

São 23 pequenos textos, de temas diversos e muito distintos entre si, com um alinhamento desordenado, até pela numeração, o nº XXIII vem em segundo lugar, o que tem a numeração XII, em último.

Textos poéticos, muitos deles, reflexões sobre a vida, sobre o amor e a morte, num exemplar tratamento da língua, como seria de esperar de uma especialista da literatura portuguesa, numa linguagem metafórica, cheia de significados múltiplos.

O sujeito/ narrador é, umas vezes feminino, outras do sexo masculino, situando-se, a maior parte das vezes, num ambiente irreal, de sonho ou de fantasia, numa fuga à realidade. O ponto de partida pode ser o mar, lugares/recordações, sentimentos, por vezes tristes, outras felizes...

E a poesia sempre presente... a metáfora, a imagem simbólica...

 

"Nas dunas, a vegetação agita-se como cabelos, dócil, percorrida por música.

Mas não se ouve nada.

Corro por entre as dunas, corro à beira-mar.

E de súbito, como num búzio, ouve-se. Vem de longe e soa, vem soando até se perder na espuma.

Branca, rendilhada, leve, branca sobre a orla.

Dançava e rodava. Deixava cair a cabeça e rodava, e sob os cabelos via de novo o branco rendilhado, esvoaçando, na orla da saia.

Havia espuma na mesa, nas taças.

Ouve-se e vem de longe, como num búzio. É bom porque vem de longe, não se sabe de onde." — Dunas

 

 

Carlos Campaniço, Mal Nascer, Casa das Letras, 2014, 191 páginas.

 

Romance finalista do Prémio LeYa, Mal Nascer é um livro que se lê com agrado, uma narrativa que nos entusiasma a não parar, na expectativa de novas revelações — uma história bem contada.

A acção remete-nos para o século XIX, época de lutas entre liberais e absolutistas, mas isso serve apenas de referência para uma identificação da personagem central e uma caracterização da sociedade envolvente, pois, embora ligado às lides liberais, não é essa a questão que domina a vida do protagonista desta história. 

O narrador/personagem central recorda memórias dramáticas da sua infância, numa vila para onde regressa muitos anos depois de a ter deixado. Aqui, onde vem exercer a profissão de médico, ao mesmo tempo que pretende ajustar contas com esse passado, vai envolver-se numa complexa história, com uma paixão proibida que o domina.

 

Valter Hugo Mãe, A Desumanização, Porto Editora, 2013, 238 páginas.

 

" O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo." — lê-se na contracapa.

 

Com uma acção situada no ambiente dos fiordes da Islândia, este romance de V.H. Mãe é uma narrativa estranha à qual não se adere de imediato. Descrevendo um ambiente e uma cultura diferentes, o narrador/personagem central desta narrativa é uma menina de uma extrema sensibilidade, uma criança-mulher que vê o mundo com um olhar poético, através dos poemas de seu pai, mas é uma criança sofrida, com uma vida mutilada pela morte da sua irmã gémea.

"Foram dizer-me que a plantavam. Havia de nascer outra vez, igual a uma semente atirada àquele bocado muito guardado de terra".

 

É um livro que tem de ser apreciado pela plasticidade da linguagem, é necessário atender, essencialmente, à forma como as palavras aparecem com nova roupagem, com um sentido outro, recriadas. O encanto desta obra está na beleza da sua escrita, na pureza destas personagens, tão primitivas e belas.

Mário Cláudio, Retrato de Rapaz — Um discípulo no estúdio de Leonardo da Vinci, Dom Quixote, 2014, 139 páginas.

 

Uma extraordinária narrativa da relação entre o Mestre e o seu discípulo, com a riqueza de linguagem que tão bem caracteriza o autor.

Acompanhando a carreira do artista até à sua morte em Amboise, França, esta pequena novela dá-nos um retrato da época, do ambiente das cidades italianas — Milão, Florença... — , da obra do Mestre Leonardo, da Corte de Francisco I, rei de França, da "corte" de discípulos que acompanha o artista e procura tirar partido da sua proximidade.

 

" Mas à medida que ia crescendo deixavam de lhe conferir aqueles tratamentos impessoais, de "o rapaz", "o miúdo", "o catraio", "o ganapo", "o garoto", ou "o pimpolho", e chamavam-no pelo nome com que o mestre o rebaptizara, ou seja "Salai", que significava "diabinho", e em que se reconhecia a sua natureza de "ladrão" e "mentiroso", de "teimoso" e "glutão", conforme o amo o caracterizava."

 

 

Laurent Gaudé, A última viagem, Sextante Editora, 2013, 136 páginas.

 

É, na realidade, uma narrativa épica. Um livro que nos deixa sem fôlego. O autor consegue levar-nos até ao passado, dar-nos a força do combate na energia dos guerreiros e conquistadores. É um mundo de guerra e de crueldade, um mundo de lutas e conquistas, um mundo masculino, mas onde se destaca a firmeza de uma mulher, também ela imortalizada.

Um livro que fala de lealdade, de afectos, mas também de lutas pelo poder, da ambição que torna inimigos os que pouco antes eram companheiros de armas. Transporta-nos a um outro mundo, a uma realidade mítica, à consagração e divinização de um herói lendário. A realidade e o mito misturam-se, num convívio natural entre dois mundos, o dos vivos e o dos mortos que se imortalizaram. O grande conquistador, Alexandre o Grande, passa, assim, da história para a lenda.

Lê-se na contracapa o comentário: "Convocando uma parte mística e uma parte fantástica, Gaudé assina um romance polifónico, digno das mais profundas mitologias."

Sándor Márai, A irmã, Dom Quixote, 2013, 213 páginas.

 

O húngaro Sándor Márai não é um narrador de futilidades, não é um autor fácil. A sua escrita é cuidada, elaborada; as suas narrativas tratam temáticas complexas, pesadas, muitas vezes, não são leituras de divertimento, de descontracção. Em As velas ardem até ao fim, A Herança de Eszter ou A Ilha, o autor desenvolve temas muito humanos, que nos fazem reflectir sobre a vida e a solidão, sobre a humanidade, sobre a complexidade da natureza humana, sobre a dificuldade que muitas vezes temos em compreender as reacções, as atitudes, os actos das pessoas.

 

Neste romance, "A irmã", de novo o autor desenvolve uma temática de grande densidade e intensidade psicológica— a vida e a morte, a doença e a forma de lidar com ela.

Situado numa época conturbada da história da Europa, esta obra, escrita em 1946, relata tempos de guerra. Mas a guerra aqui narrada não é a das trincheiras, não é a dos campos de batalha.

O que se narra aqui é uma batalha mais solitária, a batalha que alguém trava com a doença, com a dor e o sofrimento, com o conhecimento de que vai morrer em breve. A narrativa central é o Diário de um famoso pianista que nos descreve em pormenor os seus dias de internamento num hospital onde esteve durante meses, primeiro a deixar-se levar pela doença, depois a lutar contra ela e a querer viver.

É um relato impressionante desse ambiente de hospital, das reacções de médicos e enfermeiros, na perspectiva do doente.

E, no meio do sofrimento, todo o sentido da vida é posto em causa, nada do que antes vivera tem qualquer interesse, perde-se a noção de pudor, de intimidade, de orgulho, de qualquer sentimento pessoal ou de interesse social. Tudo é questionado. Mas a cura está dentro de nós, como lhe dizia um dos médicos, só o querer do doente pode produzir a cura da doença, que resultou de uma desarmonia da vida, a doença era a vida, por isso o corpo se ressentiu.

"A doença não é mais do que uma violação da ordem do mundo".

"Apesar de me encontrar neste estado pouco inteligível, entre a vida e a morte, sabia que apenas em harmonia com a consciência podia ser feliz, sem sentir qualquer tipo de culpa, mesmo que este bem-estar durasse pouco tempo."

Teresa Martins Marques, A Mulher que Venceu Don Juan, Âncora Editores, 2013, 326 páginas.

 

Esta obra trata um problema bem frequente, infelizmente, nos tempos actuais — a violência doméstica.

Sara é a personagem principal, aquela que conseguiu romper com um passado de submissão, de maus tratos, físicos e psicológicos, nas mãos de um homem violento, um cidadão importante, na profissão e na sociedade, um gentleman, mas um homem de dupla personalidade, um verdadeiro monstro, com uma vida escondida, cheia de horrores, de ligações a um submundo de traficâncias de vária ordem. Mas Sara não é a única vítima. Outras personagens, igualmente importantes povoam este romance-ensaio que se debruça sobre temas como o donjuanismo, o amor e suas nuances e outros temas ligados à literatura. Tendo em conta a vida profissional das personagens, neste romance perpassam estudos filosóficos, psicológicos e, essencialmente, literários. São referidos autores e obras, essencialmente da literatura portuguesa, mas também clássicos da literatura universal.

A autora não deixa igualmente de salientar descrições do património nacional, do natural ao construído, sem esquecer o gastronómico.

Um romance actual, algo diferente — um romance-ensaio —  com a particularidade de ter começado por ser publicado em folhetins, no facebook, um romance-folhetim da modernidade.

Manuel Jorge Marmelo, Uma Mentira Mil Vezes Repetida, Quetzal, 2011, 206 páginas.

Prémio Correntes d' Escrita 2014.

 

Da literatura escrita à velha arte de contar histórias, a narrativa oral tradicional.

Como se faz literatura, como se faz um escritor famoso...

A obra é uma parábola sobre a arte literária, sobre a invenção, sobre a relação entre a narrativa literária e a vida real. É também uma crítica à "crítica" literária, à investigação em literatura.

O narrador, um escritor falhado, diverte-se, nas viagens de autocarro pela cidade, a contar às pessoas as histórias de um livro que finge ler, um livro que nunca existiu. E dessa narrativa de histórias do livro que vai a ler passa à narrativa da biografia do pseudo-autor desse suposto livro. E já se imagina a ser entrevistado para falar sobre o autor, um desconhecido para todos, a fazer palestras nas universidades, a ser ele próprio famoso por poder, com os seus conhecimentos sobre esse famoso e desconhecido escritor, contribuir para a história da literatura.

Um livro extraordinário que bem mereceu o prémio que lhe foi atribuído.

"Poderia escrever Cidade Conquistada e submeter-me aos mecanismos normais de reconhecimento literário, às entrevistas e às sessões de autógrafos sem clientes, ao sufrágio da crítica e à opinião dos leitores, os quais seriam livres de gostarem ou não do que eu escrevesse. Mas correria, nesse caso, um risco excessivo e pouco compensador."...

Alice Munro, O Progresso do Amor, Relógio d' Água, 2011(ed. original 1986), 305 páginas.

 

Alice Munro — escritora canadiana,  Prémio Nobel da Literatura 2013.

 

O Progresso do Amor é o título do primeiro conto desta colectânea de onze contos. 

Nestas narrativas curtas podemos admirar a extraordinária mestria da autora na caracterização de personagens e na descrição dos locais. 

Uma leitura que nos arrasta, com prazer, por estes ambientes citadinos e rurais de um Canadá de outros tempos, e nos dá bem a imagem do que podemos entender por "arte de narrar". Na realidade, nestas histórias curtas, a autora consegue, com uma notável estrutura narrativa, fazer um percurso geracional, caracterizar admiravelmente as personagens e os espaços, tanto o espaço físico, como o espaço social.

Mereceu, com justiça, o prémio que lhe foi atribuído.