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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

 

"A Europa está no fim porque esgotou o seu reservatório de mitos. A América sobrepõe-se-lhe porque nunca os teve — ou teve apenas o mito de si própria, identificado com a eficácia pragmática. O que nos dá assim a consumir é pura exterioridade e imediatismo. Assim dançamos o rock sobre a nossa sepultura. A arte europeia desde há um século realizou-se na progressiva negação — até a negação de si mesma. A América conheceu-a e adoptou-a na pintura de um Pollock ou Tobey. Mas a essa mesma pô-la de parte para dar lugar a um Warhol, Jasper Jonhs, Rauschenberg e a outros que pela sua arte nos disseram por fim que a arte não existia. A Meca da cultura não é mais Paris ou Berlim, mas Nova Iorque. Simplesmente o ponto de partida não estava lá porque foi daqui. A América não deixou de ser o que era e a filosofia pragmática hoje vigente, nasceu lá há um século. A América é o que foi sempre, nós é que mudámos no nosso esgotamento. E é com a noite europeia que é visível o fósforo americano. Sempre a exterioridade na Europa foi uma sedução. Mas ela era o lado morno ou irresponsável, sendo a interioridade o lado responsável e respeitável. Mas quando este emudeceu teve o outro a sua oportunidade. E foi então que a América foi uma fiança visível. Nós assinalamos o espaço entre as duas guerras como o final do esgotamento. Mas isso é sobretudo assinalar com marcos de ferro uma desertificação que vinha de longe."

 

Vergílio Ferreira, Escrever, Bertrand Editora, 2001 (já depois da morte do autor).