Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011

A ROCHA BRANCA

 

 

Fernando Campos, A Rocha Branca, Alfaguara, Outubro de 2011, 246 páginas.

 

É o regresso de Fernando Campos às origens da sua formação académica — o mundo da antiguidade clássica, a língua e a cultura.

 

Desta vez é a poetisa Safo que inspira o autor. Num discurso cheio de poesia, com um apuro, uma delicadeza e uma riqueza de linguagem de que só este mestre é capaz, acompanhamos a poetisa Safo falando da sua vida, da sua poesia, dos seus amores.

Aliando o conhecimento histórico com a ficção, Fernando Campos descreve-nos os costumes da Grécia antiga, apresenta-nos personagens reais, mitológicas e fictícias, dá-nos a conhecer alguns poemas da poetisa de Lesbos e introduz canções da sua própria autoria. A língua grega aparece nos poemas acompanhada de tradução, dando-nos, desse modo, uma maior riqueza histórica e cultural.

Os locais são descritos em pormenor, sentimo-nos lá, presentes.

E Safo, o amor, a paixão percorrem este romance, cheio de mistérios, de crenças no sobrenatural, de poesia.

Uma leitura que encanta, que nos mostra como se pode usar a língua e a sua riqueza lexical com todo o rigor e propriedade.

publicado por isa às 15:24
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Sábado, 10 de Dezembro de 2011

O Natal dos poetas

 

O Natal no sentir de alguns dos nossos poetas:

 

Natal ... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

 

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Stou só e sonho saudade.

 

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

 

Fernando  Pessoa, Cancioneiro (1933)

 

PRESÉPIO

 

Nuzinho sobre as palhas,

nuzinho — e em Dezembro! —

Que pintores tão cruéis,

Menino, te pintaram!

 

O calor do seu corpo,

pra que o quer a Mãe?

Tão cruéis os pintores!

(Tão injustos contigo,

Senhora!)

 

Só a vaca e a mula

Com o seu bafo te aqueem.

 

—  Quem as pôs na pintura?

 

Sebastião da Gama

 

NATAL


Menino Jesus feliz

Que não cresceste

Nestes oitenta anos!

Que não tiveste

Os desenganos

Que eu tive

De ser homem,

E continuas criança

Nos meus versos

De saudade

Do presépio

Em que também nasci,

E onde me vejo sempre igual a ti.


Miguel Torga (1988)

publicado por isa às 19:55
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

O caso mental português

 

O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro — aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas, ou italianas, ou russas, ou o que quer que seja. O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres. Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.

 

Fernando Pessoa, Páginas de Doutrina Estética.

publicado por isa às 17:01
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Sábias sentenças!

 

 

Pensamentos de Heraclito, século VI-V a.C. :

 

"Ser sensato é a maior excelência, ser sábio é dizer a verdade e proceder de acordo com a natureza."

 

"Aos homens todos é dado conhecerem-se a si mesmos e saberem pensar."

 

De Alcméon, da mesma época:

 

" O homem distingue-se dos outros seres em ser o único que compreende, ao passo que os outros sentem, mas não compreendem."

publicado por isa às 15:31
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O ensino

 

O ensino requer dotes naturais e prática.

Deve começar-se a aprender em novo.

 

Protágoras (Abdera, séc. V a.C.) - trad. de M.H.da Rocha Pereira, Hélade - Antologia da Cultura Grega.

publicado por isa às 15:26
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Princípios de educação

 

Como continua a ser importante a sabedoria dos clássicos! 

Oh, se os ouvíssemos!

 

Efectivamente, aqueles que se esforçaram a aprender gramática, música e as demais disciplinas, não adquiriram vantagem alguma com relação a falar ou a deliberar melhor sobre os factos, mas tornam-se mais capazes de apreender conhecimentos mais elevados e mais sérios.

Isócrates, (Atenas, séc.V-IV a.C.), Sobre a Permuta [ trad. de M.H.da Rocha Pereira, Hélade - Antologia da Cultura Grega ]

publicado por isa às 15:17
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011

A sombra do que fomos

 

Luís Sepúlveda, A sombra do que fomos, Porto Editora, 2009, 160 páginas.

 

Mais uma vez Sepúlveda recorda os tempos conturbados da sua pátria, o Chile, as lutas pela liberdade e a ditadura de Pinochet. 

Quatro amigos, velhos revolucionários, militantes de esquerda, recordam os tempos de clandestinidade, os tempos de exílio, os amigos desaparecidos e a derrota dos seus ideais. 

Reencontram-se passados anos, lembram a breve glória de Allende e a vitória de Pinochet com todas as suas consequências para os antigos revolucionários. E é num país agora adormecido que eles procuram reactivar a sua actividade passada, embora já nada seja igual.

Pelo meio há uma história algo rocambolesca, uma morte, uma desavença conjugal e uma investigação policial.

Um exemplo de amizade, de fidelidade aos ideais, de como sobreviver no meio da adversidade.

publicado por isa às 11:13
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Ferdydurke

 

Witold Gombrowicz, Ferdydurke, 7 Nós, 2011, 292 páginas.

 

Um romance original, diferente, de um autor pouco conhecido entre nós. Publicado em 1961, o tema é bastante datado, situando-se na Polónia do pós-guerra, uma época de grandes transformações sociais.

Usando um discurso sarcástico, de chacota, o narrador personagem principal, fala de si e da sociedade que o rodeia, pondo a ridículo as mais variadas situações duma sociedade em mudança.

Num sarcasmo elevado à loucura, achincalha a educação e a cultura, numa crítica feroz à escola, aos professores, à cultura tradicional, aos rituais de iniciação juvenil. Uma crítica ao real, através do irreal, do grotesco, de um imaginário quase animalesco, do absurdo.

Uma crítica à ciência, através de cientistas que usam do exagero e da loucura na investigação, uma crítica à análise literária e ao seu snobismo, uma crítica ao “modernismo” duma sociedade que, saindo de uma estrutura quase feudal, procura, na adesão a coisas novas, mostrar-se diferente, “moderna”, deixar para trás o passado.

Nele perpassam personagens que, através do cómico de carácter ou de situação, nos mostram os pseudo-revolucionários, os progressistas, os NOVOS, em luta com os grandes senhores, ainda resistentes, mas em extinção, nas zonas rurais, onde os camponeses começam a ser despertados para os novos tempos.

O narrador ridiculariza-se a si próprio na forma como descreve as suas atitudes, os seus comportamentos, ele é, na realidade, não o herói, mas o anti-herói, que, como se afirma na capa, “lhe deu para gozar com toda a gente e com ele próprio, num tom fantástico, excêntrico, bizarro, à beira da mania, da loucura, do disparate”. Uma “máscara em constante formação-deformação que desanca nos ideais, no romantismo dos ideais e no ideal do não-romantismo, um anti-romance cheio de escárnio tenaz contra a saloiada da nomenclatura literária e académica, um livro perfeito de imperfeições que espatifa a postura da razão de estado da cultura, troça das formas humanas e derriça nos eternos e respeitáveis valores da civilização”, lê-se na contracapa.

 

De difícil leitura, de início, começa, mais tarde, a entusiarmar, depois de o leitor conseguir entrar no espírito do discurso. No entanto, peca, por vezes, na extensão das descrições e caracterizações, que ganhariam se tivessem sido reduzidas, mantendo o mesmo espírito crítico e não repetindo tantas vezes a mesma ideia.

 

A obra inclui, no final, uma entrevista com o autor publicada na revita [up]arte nº 1, Porto, 1995, com o título “O mundo demencial de Vitold Gombrowicz  ou a razão recuperada por sonhos”.

 

— Vitold Gombrowicz  nasceu em Maloszyce, na Polónia, em 4 de Agosto de 1904 e faleceu em Vence, na França, em 24 de Julho de 1969.

publicado por isa às 17:39
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