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Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Leituras

divulgação de livros; comentário de obras lidas; opiniões; literatura portuguesa; literatura estrangeira

Armando Lucas Correia, A Filha Esquecida, TOPSELLER, 2019, 301 páginas.

O horror da guerra e da perseguição nazi,  o sofrimento das crianças e o trauma que as perseguirá para a vida, estes os temas centrais desta narrativa de um tempo tenebroso, com o qual a humanidade parece não ter aprendido.

Aqui encontramos as hediondas perseguições aos judeus, a fuga e a não segurança, seja em que parte do mundo for. A obra mostra-nos como a crueldade humana não tem limites e como a obediência cega a um poder louco pode transformar o mais inocente ser num criminoso. Vemos o sofrimento das crianças, tornadas adultos sofredores depois de presenciarem o horror, e a coragem de uma mãe que tudo faz para salvar as suas filhas.

E o passado, adormecido, mas não esquecido, volta, muitos anos depois, para trazer à memória as dores e sofrimentos enterrados no mais fundo da alma.

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Donatella di Pietrantonio, A Filha Devolvida, Edições ASA, 1.ª edição 2019, 200 páginas.

Título original, L' Arminuta, 2017.

Como se pode sentir uma criança que, depois de criada por aqueles que julga seus pais, fica a saber, aos treze anos, que os seus pais biológicos são outros e é "devolvida" sem qualquer explicação?

Este livro é o relato ferido, pungente, da revolta de quem perde o amor e carinho a que estava habituada. O que é o amor de mãe e como se manifesta? Qual a relação entre os afectos e a falta do essencial para sobreviver?

Sentimentos desencontrados perante uma nova realidade completamente outra, diferente, triste, sem afecto, este é também o encontro da amizade e camaradagem entre duas irmãs que de desconhecidas se tornam inseparáveis e se protegem uma à outra. Retrato da miséria e de como lidar com ela, como aprender a desenvencilhar-se perante as amarguras, é, assim, um romance da vida, dos momentos felizes e dos momentos infelizes, da alegria e da tristeza, seja qual for a situação sócio-económica. É também o reconhecimento do estudo e da inteligência, do valor do saber.

"A filha devolvida" — como a mentira e o abandono na infância, a falta de amor, o carinho dos pais podem constituir um trauma que nunca será superado.

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Felicidade, romance de João Tordo, editado por Companhia das Letras, 1.ª edição: Outubro de 2020.

O título remete-nos para um conceito completamente oposto ao ambiente que a narrativa nos apresenta: Felicidade como nome próprio de uma das personagens, mas também aquele estado de alma e de vivência que todo o ser humano procura. E, numa trilogia de nomes falantes que compõem esta complexa trama, felicidade é a primeira a morrer para todos, restando até ao fim a esperança, "a última a morrer" também.

Marcado pelo destino, o narrador personagem é uma daquelas figuras de tragédia grega, um descendente da família dos Atridas, uma família maldita que os deuses perseguem sem descanso. Qual Orestes perseguido pelas Erínias, as divindades da vingança e do ódio, ele carrega em si, desde a sua adolescência,  um episódio que o marcará para sempre e atormentará os seus dias.

Romance com todas as características de tragédia grega, não faltando mesmo o adivinho cego que, qual coro, profetiza e aconselha.

Uma obra que nos prende desde a primeira página e nos surpreende sempre, com novas peripécias até ao desenlace.

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Hotel Melancólico da argentina María Gainza é um romance de grande intensidade cultural,  que explora os meandros do comércio e falsificação de arte. Uma estrutura narrativa rica e variada, num enredo em que a realidade e a ficção se misturam, sendo, por vezes, difícil distingui-las.

María Gainza, natural de Buenos Aires, onde nasceu em 1975, tem trabalhado como crítica de arte, com artigos publicados em jornais e revistas da especialidade, desde 2003. Estreou-se na ficção em 2014 com "O nervo Ótico".

Em Hotel Melancólico, cujo título original é "A Luz Negra", a narradora fala-nos dos seus contactos com as personagens que se movem no meio artístico, mas também de falsificação e venda de quadros falsificados, onde se destaca a figura lendária de a "Negra", uma artista e autora de falsificações, especialmente dos quadros de Mariette Lydis (pintora e ilustradora nascida na Áustria, em 1887, e que viveu em Buenos Aires onde veio a falecer em 1970).

A certa altura, a narradora lança-se numa tarefa que não tem fim, entrevistando pessoas que conheceram a enigmática Negra, e colecionando depoimentos, muitas vezes contraditórios, na tentativa de conhecer esta lenda e escrever a sua biografia. Acaba por desistir de uma busca que lhe consumia os dias, convencendo-se de que será impossível alcançar a verdade de tal personagem, saber se está viva ou morta, pois será melhor que permaneça viva como lenda.

Uma narrativa que se completa com documentos, com personagens que podemos identificar historicamente, como o empresário e coleccionador de arte Federico Manuel Vogelius, sobre quem se apresentam documentos judiciais referentes à acusação de transações de obras de arte falsificadas. Igualmente o catálogo do leilão das obras de Mariette Lydis nos remete para a realidade (ver um catálogo das suas obras aqui )

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Lídia Jorge, O Vento Assobiando nas Gruas, Dom Quixote, 2002, 538 páginas

 

“Naquela tarde de Agosto, o longo corpo da Fábrica Velha ainda lá estava estendido ao sol. Não propriamente intacto, pois nessa altura já o telhado verdoengo abaulava como se a ondulação do mar se prolongasse na cobertura do edifício. Também os parapeitos das janelas ostentavam ramalhetes de ervas finas dispostas em forma de cabeleira, puxando-os para terra.” — assim começa o romance.

 

Um retrato de duas épocas e, no essencial, duas famílias. Uma sociedade em mudança, um passado que deixa raízes num presente que quer transformar-se. Mas, no fundo, o essencial permanece. São os laços familiares, carregados de problemas próprios de famílias numerosas, são os caminhos que cada uma segue, mesmo não sendo sempre os mais correctos.

 

“Como muitas vezes lhe sucedia, possuía todos os elementos encadeados dentro da sua ideia, e no entanto, verdadeiramente, não dispunha de nada para dizer. A esse propósito, o primo João Paulo sempre fora de opinião de que, se acontecesse uma pessoa não dispor das suas próprias palavras para expor um assunto, deveria socorrer-se das palavras dos outros.”

 

É uma sociedade em mudança, onde a família acaba sempre por ser posta em primeiro lugar. Mas vemos também as tricas políticas, a especulação financeira, os interesses económicos que se sobrepõem à razão e à justiça, o compadrio e a corrupção que passam por cima da defesa do património e do meio ambiente e, sempre, o parecer a sobrepor-se ao SER. Aqui se apresentam personagens complexas nas suas vidas nem sempre fáceis, num mundo em transformação nem sempre para melhor.

Ligando tudo, desde o início, Milene, a jovem inocente e pura, a adulta menina que apenas procura um apoio, a compreensão da família, uma vida simples e feliz.  É através de Milene que tudo se desenrola e é também ela que, sem se aperceber, provoca as mudanças.

 

Uma narrativa empolgante que nos conduz nos meandros desse enigma que é a vida, nos envolve em histórias e costumes, do passado e do presente, sem esquecer a poética que sempre subjaz na natureza humana.

 

“Tinham sido dias de grande inquietação. Agora, porém, já não havia armadilha nenhuma. Deus unia todos sob a mesma abóbada. Quanto mais alto e distante, mais unia. Ali estávamos todos.”

 

José Eduardo Agualusa, O vendedor de passados, Quetzal, 2017, 145 páginas

 

Em mais uma sátira à sociedade angolana da actualidade, Agualusa apresenta-nos aqui uma personagem que, com os seus conhecimentos históricos, com os livros que herdou do pai, um português, se dedica a construir passados para aqueles que, tendo dinheiro, não têm uma história. Nesses falsos passados, que ele constrói, os homens poderosos do seu tempo, de militares a políticos, enfim, os ricos, a burguesia angolana ganha mais confiança em si, ao ponto de se convencer que aquele passado é mesmo verdadeiro.

Assim se vai construindo uma memória feita de equívocos, de construções fantasiosas, de sonhos que, por vezes, se transformam em pesadelos.

O narrador, também ele uma fantasia, um humano que se viu reduzido, metamorfoseado num minúsculo animal, vai observando o que se passa na casa deste construtor de passados, numa visão privilegiado que lhe permite assistir ao desenrolar dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, ir contando os sonhos do seu passado humano. Para credibilizar a sua existência entra em diálogo com as personagens. Em sonho? Na mente de cada um?

Uma narrativa cheia de imaginação onde sonho e realidade se misturam, levando as personagens a viver na fantasia para esquecer os seus problemas, as suas frustrações.

 

José Eduardo AGUALUSA, Barroco Tropical (romance), Dom Quixote, 2009, 342 páginas.

 

Uma narrativa cativante pela forma como vai variando a perspectiva e o tipo de narrador, bem como pela inserção de narrativas intercaladas, diários ou cartas.

Tudo se passa em Luanda, num futuro muito próximo, numa cidade onde a corrupção campeia. Tece-se, através das personagens, uma crítica feroz a uma governação autocrática, que gera o medo e o terror entre camadas da população. Há pequenos grupos que dominam de forma cruel, persecutória e assassina. Não há liberdade de expressão e os que ousam mover-se por conta própria, denunciando o que se passa, são perseguidos e ameaçados.

Sob a capa de manter tradições do povo nativo, fugindo às regras que os colonialistas deixaram, cometem-se atrocidades. Os que contestam são apelidados de traidores, acusados de estarem ainda imbuídos do espírito colonial, até mesmo por defenderem a língua oficial, o português, que os outros querem substituir pelas línguas tradicionais, que já poucos falam ou entendem.

É retratada uma cidade de contrastes, na pobreza e degradação das habitações, grandes arranha-céus abandonados, mas grandiosas casas, carros e vida de luxo para alguns, os que dominam.

Percorrendo toda a narrativa o recurso ao fantástico, a crença no sobrenatural, mesinhas e bruxarias, numa afirmação de tradições ancestrais. Curandeiros, artistas, traficantes de droga povoam este universo crespuscular, numa cidade em convulsão, no ano 2020.

Tudo começa com uma tempestade e uma mulher que caiu do céu.

Não faltam as relações com Portugal e os portugueses, os amores infelizes, a música tradicional, a literatura, o jornalismo.

“ Os jornais angolanos trazem com frequência notícias de pessoas assassinadas sob a acusação de feitiçaria.”

“Triste figura a minha. Arrastado por uma trela, como um animal, rosto desfigurado, camisa manchada de sangue, calças rasgadas.”

“Escrevo para iluminar os corredores da minha alma.”

“A caveira falante — um conto africano”

Cap. 19 “ O vendedor de espelhos, seguido de um debate sobre línguas e identidades destinado a confundir os meus detractores neonativistas”

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Elena Ferrante, A Amiga Genial, Relógio D'Água, 2014, 264 páginas.

 

Este é o primeiro volume de uma série que já vai em quatro volumes, da autora italiana que tem despertado a curiosidade geral nos últimos anos pela sua escrita forte e pelos temas que retrata.  O facto de publicar sob pseudónimo e ter mantido o anonimato adensou um mistério que foi, há pouco, desvendado pelas investigações de um jornalista, o que suscitou acesa polémica sobre o direito ao anonimato.

 

A narrativa situa-se num bairro pobre, de gente trabalhadora, dos subúrbios de Nápoles nos anos 50 do século XX e trata, essencialmente, da amizade entre duas raparigas, desde os tempos da escola primária até à adolescência e juventude, culminando no casamento precoce de uma delas. 

Elena, a amiga que continua os seus estudos na escola secundária, recorda, na idade adulta, esses tempos passados no bairro, os ambientes, as famílias, as zangas e os mexericos de uma comunidade onde todos se conhecem e onde os problemas se resolvem entre eles com palavras e com actos mais ou menos violentos e onde tudo continua igual e a vida vai correndo sem grandes mudanças.

Elena e Lila tornam-se inseparáveis, são alunas óptimas na escola, mas Elena vive na dependência de Lila que considera um "génio", achando-se ela própria muito inferior em inteligência e capacidades.

A entrada de Elena na escola secundária, o contacto com um mundo diferente, a apreciação dos professores que elogiam o seu trabalho acabam por provocar em Elena sentimentos antagónicos e um desfasamento que em nada contribui para a sua felicidade. No seu bairro ela sente-se, por vezes, uma estranha, o comportamento dos seus amigos já não está de acordo com a sua maneira de ser, as conversas que ela gosta de ter sobre o que aprende na escola não interessam àqueles que continuam no bairro entregues a trabalhos nada intelectuais.

 

Elena fala-nos dos seus sentimentos, dos sonhos que ela e Lila tinham em miúdas e da mudança de tudo isso. Há nela uma solidão que se adensa junto daqueles que estima e que são os seus amigos e os seus familiares. Ela já não pertence a este mundo, mas também não pertence ao outro, o mundo da cidade onde se situa a escola que frequenta. E sente que vai perdendo a amiga que vai casar com um jovem, mais velho que elas, mas que tem dinheiro e pode dar a Lila uma vida bem diferente.

Nuno Camarneiro, Se eu fosse chão, D.Quixote, 2015, 126 páginas

 

Pequeníssimas histórias — Histórias do Palace Hotel — que pretendem ilustrar o que pode passar-se num quarto de hotel: amores e traições, mentira e verdade, vida e morte.

Situadas em três épocas distintas e distantes, as histórias dividem o livro em três partes: 1928, 1956, 2015. Três datas que ilustram épocas, como se lê na contracapa:

“ Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de Se Eu Fosse Chão — diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas — contam histórias a quem as queira escutar.”

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Frederico Lourenço, O Lugar Supraceleste – crónicas, Cotovia, 2015, 275 páginas.

 

Reunião de 90 pequenas crónicas antes publicadas em blog.

O título justifica-se com a última crónica, onde cita Platão, para, com a sua apreciação e o seu gosto musical, dizer que o filósofo grego não tem razão.

“ Platão, que teve o desplante de chamar à filosofia a mais alta forma de música, juntou depois injúria aos insultos já lançados contra os poetas ao queixar-se de que nenhum poeta alguma vez conseguira cantar o lugar supraceleste que está para lá da abóbada do céu.”

 

Comentando temas vários, o autor revela-se a si próprio, fala de si, da família, dos amores e desamores, dos seus gostos.

As citações clássicas são uma constante, como seria de esperar, mas são também muitas as crónicas que falam de música, dos grandes clássicos e grandes intérpretes da música chamada “erudita”. É, aliás, através da música que F.L. justifica o seu desmentido a Platão, pois com ela atinge o tal “lugar supraceleste”.

Não será um livro para o leitor comum, mas também esse “leitor comum” pode encontrar aqui alguns lemas de vida, algumas reflexões que poderão dar um novo sentido a questões do quotidiano.

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