Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Ferdydurke

 

Witold Gombrowicz, Ferdydurke, 7 Nós, 2011, 292 páginas.

 

Um romance original, diferente, de um autor pouco conhecido entre nós. Publicado em 1961, o tema é bastante datado, situando-se na Polónia do pós-guerra, uma época de grandes transformações sociais.

Usando um discurso sarcástico, de chacota, o narrador personagem principal, fala de si e da sociedade que o rodeia, pondo a ridículo as mais variadas situações duma sociedade em mudança.

Num sarcasmo elevado à loucura, achincalha a educação e a cultura, numa crítica feroz à escola, aos professores, à cultura tradicional, aos rituais de iniciação juvenil. Uma crítica ao real, através do irreal, do grotesco, de um imaginário quase animalesco, do absurdo.

Uma crítica à ciência, através de cientistas que usam do exagero e da loucura na investigação, uma crítica à análise literária e ao seu snobismo, uma crítica ao “modernismo” duma sociedade que, saindo de uma estrutura quase feudal, procura, na adesão a coisas novas, mostrar-se diferente, “moderna”, deixar para trás o passado.

Nele perpassam personagens que, através do cómico de carácter ou de situação, nos mostram os pseudo-revolucionários, os progressistas, os NOVOS, em luta com os grandes senhores, ainda resistentes, mas em extinção, nas zonas rurais, onde os camponeses começam a ser despertados para os novos tempos.

O narrador ridiculariza-se a si próprio na forma como descreve as suas atitudes, os seus comportamentos, ele é, na realidade, não o herói, mas o anti-herói, que, como se afirma na capa, “lhe deu para gozar com toda a gente e com ele próprio, num tom fantástico, excêntrico, bizarro, à beira da mania, da loucura, do disparate”. Uma “máscara em constante formação-deformação que desanca nos ideais, no romantismo dos ideais e no ideal do não-romantismo, um anti-romance cheio de escárnio tenaz contra a saloiada da nomenclatura literária e académica, um livro perfeito de imperfeições que espatifa a postura da razão de estado da cultura, troça das formas humanas e derriça nos eternos e respeitáveis valores da civilização”, lê-se na contracapa.

 

De difícil leitura, de início, começa, mais tarde, a entusiarmar, depois de o leitor conseguir entrar no espírito do discurso. No entanto, peca, por vezes, na extensão das descrições e caracterizações, que ganhariam se tivessem sido reduzidas, mantendo o mesmo espírito crítico e não repetindo tantas vezes a mesma ideia.

 

A obra inclui, no final, uma entrevista com o autor publicada na revita [up]arte nº 1, Porto, 1995, com o título “O mundo demencial de Vitold Gombrowicz  ou a razão recuperada por sonhos”.

 

— Vitold Gombrowicz  nasceu em Maloszyce, na Polónia, em 4 de Agosto de 1904 e faleceu em Vence, na França, em 24 de Julho de 1969.

publicado por isa às 17:39
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