Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

A Cultura — essencial para a paz no mundo

 

No seu livro "Um mundo sem regras", Amin Maalouf, depois de analisar os graves males do nosso tempo, a perda de credibilidade dos diversos poderes, o problema dos valores, estabelecendo um confronto entre diversas épocas da história, apresenta algumas ideias para este século XXI, para ultrapassar os momentos de crise. Segundo ele, a cultura é algo de essencial com que podemos preencher "Estas dezenas de anos adicionais que a medicina nos oferece":

 

Esta é já uma razão suficiente para considerar o primado da cultura como uma disciplina de sobrevivência. Mas não é a única razão. Há uma outra, igualmente fundamental e que só por si justificaria que coloquemos a cultura no centro da nossa escala de valores. Trata-se da maneira como ela pode ajudar-nos a gerir a diversidade humana.

Estas populações com múltiplas origens, que vivem lado a lado em todos os países, em todas as cidades, vão continuar a olhar-se entre si através de prismas deformantes — algumas ideias feitas, alguns preconceitos ancestrais, algumas fantasias simplistas? Parece-me que chegou o momento de modificar os nossos hábitos e as nossas prioridades para nos colocarmos seriamente à escuta do mundo onde estamos embarcados. Porque neste século já não há estrangeiros, já só há "companheiros de viagem". Quer os nossos contemporâneos habitem do outro lado da rua ou no outro lado da Terra, estão a dois passos da nossa casa. Os nossos comportamentos têm efeito na sua carne, e os seus comportamentos têm efeito na nossa.

Se pretendemos preservar a paz civil nos nossos países, nas nossas cidades, nos nossos bairros e no conjunto do planeta, se desejamos que a diversidade humana se traduza por uma coexistência harmoniosa e não por tensões geradoras de violência, já não podemos permitir-nos conhecer "os outros" de maneira aproximativa, superficial, grosseira. Temos necessidade de conhecê-los com subtileza, de perto, direi mesmo na sua intimidade. O que só pode fazer-se através da sua cultura. E em primeiro lugar através da sua literatura. A intimidade de um povo é a sua literatura. É aí que ele revela as suas paixões, as suas aspirações, os seus sonhos, as suas frustrações, as suas crenças, a sua visão do mundo que o rodeia, a sua percepção de si mesmo e dos outros, inclusive de nós próprios.   [...]

Não vejo objectivo mais crucial neste século e é claro que, para termos os meios para o alcançar, devemos atribuir à cultura e ao ensino o lugar prioritário que lhe cabe.

 

Amin Maalouf, Um Mundo sem Regras, Difel, 2009.

 

Por que razão não há, entre a classe dirigente dos diversos países, quem veja estas verdades?

Por que razão continuam as "razões económicas" a gerir o Mundo?

 

 

publicado por isa às 00:17
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