Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

Eça de Queirós e a Europa

 

Muito se tem citado o nosso grande Eça, mostrando a actualidade dos seus textos.

Aqui fica mais um. Falando sobre a Europa, escrevia:

 

"De sorte que, olhando em resumo para o norte e para o sul, bem podem aqueles que se distinguem por conhecer as coisas das nações sombriamente afirmar que a máquina se desconjunta, e que a situação da Europa é medonha!

E todavia, no fundo, a situação é simplesmente normal. [...]

A situação da Europa, na realidade, nunca deixou de ser medonha. Tem-no sido melancolicamente e apaixonadamente todo este século. Foi-o durante todo o século XVIII, através de mais indiferença e de uma maior doçura de vida. Tem-no sido em todos os séculos, desde que os Árias aqui chegaram, cantando os Vedas e empurrando os seus rebanhos para oeste. A "crise" é a condição quase regular da Europa. E raro se tem apresentado o momento em que um homem, derramando os olhos em redor, não julgue ver a máquina a desconjuntar-se, e tudo perecendo, mesmo o que é imperecível — a virtude e o espírito. Já o velho cronista medieval murmurava com infinita desconsolação: — "Tudo se desconjunta, e mesmo entre os homens se vai embotando a ponta da sagacidade." Já o mais velho poeta clássico, o comedido e satisfeito Horácio, cantara tristemente, quando sobre o Mundo começava a espalhar-se a imensa majestade da paz romana: — "Tudo se afunda, e, mais que nenhum outro, este tempo é fecundo em misérias."

Naturalmente não se queixavam de deficits ou de crises industriais, mas daquilo que então mais preocupava os homens cultos — o enfraquecimento da virtude, da moral, da religião, do patriotismo, da segurança pública.   [...]

Mas o que são no fundo estes lamentos? São apenas, num tom mais solene e amplo, aquele queixume familiar que cada ano redizemos, quando as folhas caem e os céus se recobrem de névoas: — "Aí vem o Inverno e a noite!"

É que a sociedade assemelha-se à Natureza. E na Europa, como em qualquer espesso bosque, num fundo de vale, um momento vem em que tudo decai e fenece: — os ramos secam e racham, os mais altos carvalhos tombam de velhice, mil podridões fermentam, o solo desaparece sob os destroços, a obscuridade aterra, um longo soluço passa no vento. E, a quem então o atravesse, o bosque afigura-se na verdade coisa confusa, arruinada e medonha. E todavia, tudo isso — é simplesmente Dezembro. É a vida; é a ordem. Das ramagens apodrecidas já se estão nutrindo as sementes que hão-de ser árvores: e através das decomposições conserva-se a seiva, que tudo fará reflorir e reverdecer, quando Março chegar. Ora estes tempos que vamos atravessando são o Outubro fusco que anuncia um dos grandes Dezembros do mundo. Temos já misérias, crises, dissoluções, velhas raízes que se despegam, prantos no vento; pior nos irá quando Dezembro vier: mas através de todas as vicissitudes sempre se conservará, como na Natureza, a eterna seiva, que é a aterna força. "  

Eça de Queirós, na Gazeta de Notícias em 2 de Abril de 1888.  in Notas Contemporâneas

publicado por isa às 23:55
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