Domingo, 16 de Outubro de 2011

Odysseas Elytis

 

     VIERAM

com os galões dourados

     os galos do Norte e as feras do Levante.

E tendo repartido em duas a minha carne

     acabaram por se disputar pelo meu fígado

e foram-se.

     "Para eles", disseram, "o fumo do sacrifício,

para nós os fumos da glória,

     amén."

E o som enviado do passado

     todos o ouvimos e conhecemos.

Conhecemos o som e de novo

     de voz apertada cantámos:

para nós, para nós o ferro ensanguentado

     e a traição triplamente urdida.

Para nós a madrugada na caldeira

     e os dentes cerrados até à hora derradeira,

e o dolo e a rede invisível.

     Para nós o rastejar na terra,

a jura escondida na escuridão

     dos olhos, a crueldade,

sem nenhuma, nunca nenhuma Contrapartida.

     Irmãos enganaram-nos!

"Para eles", disseram, "o fumo do sacrifício,

     para nós os fumos da glória,

amén."

     Mas tu na nossa mão a candeia das estrelas

com a tua fala acendeste, boca do inocente,

     porta do Paraíso!

A vigência do fumo no futuro vemos

     jogo da tua respiração

e seu poder e reinado!

 

                        de Louvado Seja (Áxion Estí), tradução portuguesa e posfácio de Manuel Resende, Assírio e Alvim, 2004.

 

Odysséas Elytis é um poeta grego falecido em 1995. Recebeu o prémio Nobel em 1979.

Áxion Estí, publicado em 1959, é um poema nacional no qual o poeta, inspirado na tradição, revê a história da Grécia com todas as suas vicissitudes e anseia por um renascimento. E, como ele disse no Discurso do Prémio Nobel:

 

"No fundo, o mundo material é um puro amontoado de matéria. A construção final depende da nossa qualidade de arquitectos. O paraíso ou o inferno. Se a poesia contém uma garantia e isto nestes tempos sombrios, é precisamente esta: que o nosso destino, apesar de tudo, está nas nossas mãos." In Posfácio a Áxion Estí de Manuel Resende.

 

publicado por isa às 17:15
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