Sábado, 24 de Março de 2012

Júlio Verne

No dia 24 de Março de 1905 morre em Amiens, França, o escritor Júlio Verne (nascido em Nantes a 8 de Fevereiro de 1828).

Autor de mais de uma centena de livros é especialmente conhecido pelas suas obras de ficção científica, tendo apresentado, na ficção, muito do que viria a ser, anos mais tarde, a realidade do avanço da ciência e da técnica: os submarinos, as máquinas voadoras, as viagens à Lua…

Os seus livros foram traduzidos para várias línguas, sendo um dos escritores com mais obras traduzidas em toda a história da literatura.

Obras como Cinco semanas em balão, 1863, Viagem ao centro da terra, de 1864, Vinte mil léguas submarinas, 1870, A volta ao mundo em oitenta dias, 1872, entre muitas outras, povoaram o imaginário de muitas gerações de jovens leitores em todo o mundo.

 

— Um texto exemplificativo:

 

Não sei de mais completa estupefacção do que aquela de que os transeuntes parados na estrada de Calcutá a Chandernagor, homens, mulheres e crianças, tanto ingleses como indianos, davam mostras não equívocas na manhã de 6 de Maio.

Francamente, aquele profundo sentimento de surpresa era bem natural.

Ao romper do Sol, de um dos arrabaldes da capital da índia, entre duas alas compactas de curiosos, saía um comboio de bem estranho aspecto, se tal nome se podia dar ao espantoso aparelho que subia a margem do Hougly.

À frente, e como único motor do comboio, um elefante gigantesco, da altura de vinte pés, do comprimento de trinta, e largura proporcional, avançava tranquila e majestosamente. Tinha uma tromba um pouco curva, com a ponta para cima, que lembrava enorme cornucópia. As presas, todas douradas, saíam da enorme queixada, semelhantes a duas foices ameaçadoras. Sobre o seu corpo, caprichosamente sarapintado, desdobrava-se uma rica coberta de cores vistosas, enfeitada de filigranas de ouro e prata, orlada de pesada franja. Trazia sobre o dorso uma espécie de torre, coroada de uma cúpula à moda da índia, e as paredes da torre eram providas de grossos vidros lenticulares, semelhantes às clarabóias de um camarote de navio.

Puxava o elefante um comboio composto de dois enormes carros, ou, melhor dizendo, de duas verdadeiras casas, espécie de bungalows ambulantes, cada um deles montado em quatro rodas esculpidas nos eixos, nos raios e nas caibas.

Estas rodas, de que só se via o segmento inferior, moviam-se dentro de caixas meio ocultas pelo rodapé dos enormes aparelhos de locomoção.

Uma pequena ponte articulada, que se prestava aos caprichos das voltas que era preciso dar, punha o primeiro veículo em comunicação com o segundo.

Como podia um só elefante, por muito forte que fosse, puxar aquelas duas maciças construções, sem nenhum esforço aparente? A verdade é que o possante animal a puxava.

As grandes patas levantavam-se e baixavam-se automaticamente, com uma regularidade puramente mecânica, e imediatamente passava do passo ao trote, sem que se visse a mão ou se ouvisse a voz de um mahout.

Era isto de que os curiosos se deviam logo admirar quando se conservavam a distância. Mas quando se aproximavam do colosso, faziam novas descobertas, e à admiração sucedia-se a surpresa.

Primeiro que tudo, uma espécie de mugido cadenciado, muito parecido com o uivo particular dos gigantes da fauna indiana, feria logo o ouvido. Além disso, com pequenos intervalos, saíam da tromba, erguida para o céu, rápidos jactos de vapor.

Não havia, porém, dúvida de que era um elefante!

A sua pele rugosa, de um verde-escuro, cobria com toda a certeza uma dessas ossadas poderosas com que a natureza favoreceu o rei dos paquidermes!

Os seus membros eram dotados de movimentos!

Mas, se algum curioso se arriscasse a pôr a mão sobre o enorme animal, tudo se explicaria. Aquilo não passava de uma ilusão, de uma imitação surpreendente, que mesmo de perto apresentava todas as aparências de vida.

O elefante era de aço, nas suas entranhas abrigava-se uma locomotora completa.

Quanto ao comboio, à «Steam House», para empregarmos o qualificativo que lhe convém, era a habitação ambulante prometida pelo engenheiro.

O primeiro carro, ou, antes, a primeira casa, servia de habitação ao coronel Munro, ao capitão Hod, a Banks e a mim.

Na segunda instalava-se o sargento Mac Neil e os indivíduos de que se compunha o pessoal ao serviço da expedição.

Banks cumprira a sua promessa, o coronel também, e aqui está a razão por que nós tínhamos partido naquela manhã de 6 de Maio, conduzidos por aquele trem verdadeiramente extraordinário, a visitarmos as regiões setentrionais da península indiática.

Mas para que era aquele elefante artificial? De que servia aquela fantasia, tanto em desacordo com o espírito prático dos Ingleses? Até então nunca ninguém se lembrara de dar a uma locomotiva, destinada a circular, quer pelo macadame das estradas, quer pelos carris dos caminhos de ferro, a forma de qualquer quadrúpede!

Da primeira vez que nos deixaram ver aquela máquina surpreendente, foi, devemos confessar, geral o espanto!

 

A casa a vapor (1880), Capítulo V — O gigante de aço.

 

publicado por isa às 17:48
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